Chegará o dia quando, em determinado momento, um médico comprovar que meu cérebro deixou de funcionar e meu coração de bater.
Definitivamente minha vida neste mundo há de ter chegado ao fim.
Quando isto ocorrer, não tentem manter meu corpo com vida artificial, impulsionado por uma máquina. E não digam que me acho no leito da morte, estarei no meu leito da vida e a retirada do meu corpo fará com que alguns semelhantes tenham vida melhor.
Dêem meus olhos a alguém que nunca pôde contemplar a aurora nem o colorido das flores e a imensidão das águas e florestas.
Meu coração a alguém cujo sofrimento é insuportável e que após recebê-lo, terá milhões de razões para dar ainda mais amor.
Meu sangue? Dêem a algum jovem retirado dos escombros do acidente de automóvel e das guerras pelo poder. Ele levará ao mundo o amor que eu sentia e mais o dele: seremos invencíveis!
Meus rins deverão ser para alguém que depende da máquina para viver, semana após semana. Sem eles, talvez não conhecerá seus netos, nem terá a chance de dar e receber amor. Este alguém já conheceu o mais profundo dos sentimentos.
Para que uma criança possa correr atrás da bola, atrás da vida, atrás da alegria, dêem-lhe meus ossos e músculos e tendões, dêem-lhe o prazer de poder amar.
As células do meu cérebro, que me davam a inteligência, deverão ser implantadas em alguém, para que esse anônimo passe a ser conhecido pela alegria de viver. Os neurônios farão o comando de amar e dar muito amor.
As cinzas do que sobrou do meu corpo deverão alimentar as raízes das árvores.
Se acaso alguém perguntar quem disse estas palavras, digam que foi um desconhecido que conheceu apenas o amor e que por isso viverá eternamente...